Na paz do Pau d'Erva
Corria o ano de 1925. Era um negro jovem, devia ter uns 17 anos, ele mesmo não sabia a idade. Vindo do norte, provavelmente egresso de algum quilombo do passado, desceu pelo costado da Serra, passou na frente da igreja e se benzeu, batendo à porta do professor, em busca de abrigo e serviço. Roto, pés descalços, olhos suplicantes, quase nada sabia da própria história. Acolhido e alimentado, ficou forte para o trabalho da roça. O professor tinha os deveres da escola, a saúde frágil e, em casa, muitas boquinhas para alimentar. O forasteiro foi ficando, gostando, se afeiçoando. Nunca mais saiu. Analfabeto, não tinha religião, mas acreditava em Deus e foi batizado como Júlio. Ele mesmo só sabia o prenome, e que o pai era Lourenço. O professor acabou falecendo, seus filhos crescendo e casando, e ele seguiu o caminho de uma das filhas.
O que impressionava era a clareza de valores e princípios que trouxera do seu berço desconhecido, e que foi enriquecendo no convívio da família que o acolheu. Num mundo hostil, ele espremeu a adversidade, dela extraindo a virtude. Arrumou uma companheira, que já tinha uma prole numerosa, e com ela teve mais uma filha. A ela e aos enteados deu amor e exemplos de dignidade. Ignorante em coisas como o casamento, a união durou pouco, mas a amizade foi eterna. Nunca mais arrumou ninguém, sua vocação era mesmo de celibatário. Com imensa sabedoria sobre ética, moral e bons costumes, aconselhava os mais novos da comunidade negra, e até espinafrava alguns dos seus hábitos. Sua única concessão era a bebida, à qual sucumbia a cada sábado e domingo. Tinha consciência de que esta era a sua fraqueza. Costumava dizer que seu nome inteiro era Júlio Lourenço Bagaceira do Lugar. Mas por nada abriria mão do etílico prazer da pinga.
Ele tinha seu ganho diário pelo trabalho, mais casa e comida, compartilhando a mesa com a família do patrão, cujos filhos chamava de "dotô", porque estudavam e eram "sabidos". Ganhava mais umas coisas, especialmente roupas. Só o que não lhe davam era o fumo do palheiro e a amada água-que-passarinho-não-bebe, que saíam do seu próprio suor. Para evitar vexame, só bebia em casa, por conselho do patrão, que comprava a cachaça e lhe fornecia uma garrafa por sábado, tudo combinado e aceito. Desde que passou a ser assim, nunca mais ele foi visto de porre em via pública. Em casa, além da "marvada pinga", ele tinha a companhia da sua velha gaita, com os foles cheios de furos e remendos. Dela tirava alegres marcas "porcas e varsas", como ele dizia para animar arrasta-pés de levantar poeira. De vez em quando, por causa da cana que corria solta, fechava o tempo e ele acabava de vereda com o buchincho, porque tinha horror a encrenca.
Muitos negros trabalhavam como peões nas lavouras dos colonos, com os quais se davam bem. Boa parte deles se envolvia em confusões por causa da bebida, com brigas às vezes até bem feias. Nosso herói não cansava de aconselhar a sua gente a beber em casa, como ele fazia, mas não lhe davam ouvidos. Vários deles restaram mutilados por causa dessas desavenças. Mas, passado o pileque, voltavam a se dar bem. Eles temiam menos a valentia do eventual desafeto do que a má fama de um policial medonho do distrito, conhecido por Moso. Cair nas mãos dele era pau na certa. Um deles foi uma vez recolhido, apanhando um monte para confessar o que não tinha feito. Acabou no hospital, com séria lesão pulmonar, que o levou à morte com trinta e poucos anos.
Júlio tinha um bom-humor contagiante. Falava o alemão dos colonos com um sotaque só dele, primoroso, que saía melhor depois de um gole de pinga. Mas gole daqueles demorados, de fazer glu-glu durante vários segundos com a garrafa empinada. Tinha horror da morte. Ele ficaria para semente. O chamado Pau d'Erva, onde a comunidade negra tinha o seu cemitério, jamais receberia os seus restos mortais. Morrer era destino dos outros. "Praga ruim não morre", ele sempre dizia, acrescentando uma sonora gargalhada.
Criada a aposentadoria rural, nos anos 70, o patrão achou que o velho e fiel escudeiro já tinha idade e merecimento para descansar, e foi atrás de ajuda para aposentá-lo. Não havendo registro civil, conseguiu no Bispado uma certidão de batismo do tal Júlio, e com ela a aposentadoria foi obtida. Assim, o preto velho herói ainda viveu uma velhice tranqüila. E mesmo contra a vontade, chegou a sua vez. O anjo negro de alma cândida foi chamado para beber sua pinga bem pertinho de Deus, pelo resto dos tempos. E seu corpo foi descansar, tocar "porcas e varsas" na paz do Pau d'Erva, esperando o prêmio dos justos.